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Review | Terminator 2D: NO FATE (PC)

O RETORNO DO REI METÁLICO E A AUDÁCIA DA NOSTALGIA

Existe algo de profundamente sagrado e ao mesmo tempo terrivelmente perigoso em revisitar obras que definiram não apenas um gênero, mas toda a estrutura emocional de uma geração. O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final não é apenas um filme para mim. É um marco sísmico, uma daquelas raras conjunções astrais onde a tecnologia, a narrativa e a performance se encontraram para criar algo que, até hoje, reverbera com uma força quase nuclear na cultura pop. Quando soube que a Bitmap Bureau, um estúdio pelo qual nutro um respeito cauteloso devido ao seu histórico com pixel art, ousaria tocar neste monólito com Terminator 2D: NO FATE, senti aquele calafrio familiar. É o medo da profanação misturado com o desejo ardente de ver, mais uma vez, aquele universo ganhar vida sob meus dedos.

Terminator 2D: NO FATE

Ao iniciar o jogo no meu PC, confesso que fui invadido por um ceticismo defensivo. Vivemos em uma era de remakes preguiçosos e “cash grabs” que parasitam nossas memórias mais queridas. Mas o que encontrei aqui não foi um simples produto caça-níqueis. Encontrei uma cápsula do tempo, uma tentativa audaciosa e esteticamente deslumbrante de traduzir a grandiosidade cinematográfica de James Cameron para a linguagem intimista e frenética dos arcades de 16 bits. É uma obra que não tenta competir com o realismo fotográfico moderno, mas sim evocar a sensação, a textura e a emoção de como nós lembramos dos anos 90. É um jogo que carrega o peso do metal em seu nome e a responsabilidade de não decepcionar a criança interior que ainda vive em mim, esperando o dia do julgamento com um misto de pavor e fascínio.

REESCREVENDO O APOCALIPSE EM SILÊNCIO

A premissa narrativa de NO FATE é, no papel, absolutamente fascinante. A ideia de pegar o cânone sagrado de 1991 e permitir que nós, meros mortais com um controle na mão, pudéssemos alterar o destino e evitar o apocalipse nuclear é de uma ambição que merece aplausos. O jogo segue a espinha dorsal do filme com uma fidelidade quase religiosa. Estamos lá na fuga frenética do hospital psiquiátrico Pescadero, sentimos a tensão nos corredores da Cyberdyne e vivemos o horror na fundição de aço. No entanto, existe uma dissonância curiosa na forma como essa história é contada.

Para uma obra baseada em um filme onde cada frase dita por Arnold Schwarzenegger se tornou um bordão cultural, o jogo opta por uma mudez que, em certos momentos, soa quase anticlimática. As interações narrativas ocorrem através de caixas de texto estáticas. Entendo a escolha estilística de emular os RPGs e jogos de ação da era dourada, mas sentir a ausência daquelas vozes icônicas retira uma camada de visceralidade que o material original exala. É como assistir a uma ópera sem o som, onde você vê a grandiosidade dos gestos, mas perde a vibração que faz a alma tremer.

Terminator 2D: NO FATE

Onde o jogo realmente brilha e expande o universo é na inclusão das sequências da Guerra do Futuro. Controlar um John Connor adulto, calejado pela batalha e liderando a resistência contra a Skynet, é o sonho febril de qualquer fã que sempre quis ver mais daquele futuro azulado e cheio de crânios que Cameron nos mostrou apenas em vislumbres. É nestes momentos que a narrativa ganha um peso próprio, desvencilhando se das amarras do roteiro do filme para explorar o horror e a esperança de uma humanidade à beira da extinção. A promessa de múltiplos finais e caminhos ramificados adiciona uma textura interessante, sugerindo que nossas ações têm consequências, embora a execução dessa mecânica, como discutirei adiante, carregue seus próprios problemas estruturais.

A DANÇA DA MORTE E A BALÍSTICA PIXELADA

Se a narrativa tropeça em seu silêncio, a jogabilidade é um grito gutural de pura adrenalina. NO FATE não tenta reinventar a roda, mas sim poli la até que brilhe como o endoesqueleto de um T 800. Estamos diante de um “run and gun” clássico, um herdeiro espiritual de Contra e Metal Slug, mas com uma identidade que é inegavelmente Terminator. A sensação de disparar as armas é catártica. Existe um peso, um recuo visual e sonoro que faz com que cada tiro pareça importar.

Terminator 2D: NO FATE

O que me surpreendeu positivamente foi a assimetria no design dos personagens. Jogar com o T 800 é uma experiência de poder bruto. Você se sente um tanque de guerra imparável, absorvendo dano e devolvendo destruição com sua minigun giratória. É uma fantasia de poder realizada com maestria. Por outro lado, Sarah Connor oferece uma experiência completamente distinta. Ela é ágil, tática e frágil. Controlá la exige uma finesse, uma leitura de cenário e uma precisão que transformam o jogo em uma dança letal. E então temos o John Connor do futuro, que traz o caos tecnológico com armamentos de plasma que iluminam a tela em um espetáculo pirotécnico deslumbrante.

Contudo, nem tudo são flores neste jardim de aço. O jogo tenta variar o ritmo com seções de combate corpo a corpo, como a infame briga no bar de motoqueiros, e é aqui que a experiência engasga. A mecânica de “beat ’em up” é rudimentar, travada e carece da fluidez necessária para ser divertida. Parece um adendo obrigatório para cumprir a lista de cenas do filme, sem o mesmo cuidado e polimento dedicados às seções de tiroteio. As perseguições de veículos também oscilam entre momentos de alta tensão e frustração devido a controles por vezes imprecisos. Mas quando o jogo se foca no que faz de melhor, que é a trocação de tiros frenética e a esquiva de projéteis em cenários labirínticos, ele atinge um estado de fluxo que é puro êxtase para quem ama o gênero.

AS ENGRENAGENS ENFERRUJADAS DA LIBERDADE

Aqui precisamos ter uma conversa séria sobre escolhas de design que parecem presas em um passado que não precisava ser resgatado. O subtítulo do jogo, NO FATE, sugere uma liberdade de escolha, uma agência sobre a narrativa. E de fato, essa liberdade existe, mas o jogo comete o pecado capital de trancá la atrás de uma barreira artificial na primeira jogatina. Você é obrigado a seguir o roteiro do filme, linha por linha, sem poder de decisão, até ver os créditos pela primeira vez. Apenas após terminar o jogo é que as opções de ramificação se abrem.

Eu entendo a lógica de querer que o jogador experiencie a história “canônica” primeiro, mas para um jogo que pode ser finalizado em menos de uma hora, essa decisão soa como uma tentativa barata de inflar o tempo de jogo e forçar a replayabilidade. É frustrante. Eu queria poder salvar o Miles Dyson ou deixá lo morrer logo na minha primeira tentativa. Eu queria sentir o peso daquelas escolhas enquanto a emoção da descoberta ainda estava fresca. Ter que rejogar tudo para finalmente acessar a mecânica central que dá nome ao jogo é um balde de água fria.

Terminator 2D: NO FATE

Além disso, o sistema de progressão e dificuldade é punitivo de uma maneira que beira o masoquismo desnecessário. O sistema de vidas e continues limitados, fiel aos arcades devoradores de fichas, pode afastar jogadores menos acostumados com a brutalidade dos anos 90. A ausência de checkpoints mais generosos ou de um seletor de fases imediato em um jogo doméstico moderno parece um anacronismo. As mecânicas de cobertura, por exemplo, são contextuais e nem sempre respondem com a velocidade que o caos na tela exige, o que leva a mortes que parecem injustas e não fruto da minha falta de habilidade. É um jogo que exige perfeição, mas nem sempre te dá as ferramentas precisas para alcançá la de forma orgânica.

UMA SINFONIA DE CROMO E SINTETIZADORES

Se nas mecânicas eu tenho minhas ressalvas, na apresentação audiovisual eu me rendo completamente. Terminator 2D: NO FATE é, visualmente, uma obra de arte. A pixel art apresentada aqui não é apenas bonita, ela é evocativa. A Bitmap Bureau conseguiu capturar aquela paleta de cores fria, azulada e metálica que James Cameron imortalizou no cinema. Cada sprite, cada animação, cada fundo de cenário transborda um carinho e uma atenção aos detalhes que são comoventes. A animação do T 1000 se transformando, liquefazendo se e recompondo se é de um virtuosismo técnico que faria qualquer console de 16 bits explodir se tentasse processar na época.

Terminator 2D: NO FATE

Os cenários são ricos, atmosféricos e contam histórias por si só. O futuro pós apocalíptico é sujo, opressivo, cheio de detalhes mórbidos que dão escala ao conflito entre homem e máquina. Notei, no entanto, uma certa rigidez na animação da Sarah Connor, especialmente em seus saltos, o que contrasta um pouco com a fluidez quase líquida dos inimigos. Mas isso é um detalhe menor diante da grandiosidade do conjunto.

E o som… ah, o som. A trilha sonora é um espetáculo à parte. Não se trata apenas de replicar o tema clássico de Brad Fiedel, mas de recontextualizá lo para a urgência de um videogame. As percussões metálicas, que soam como martelos batendo em bigornas, criam uma tensão palpável que impulsiona o jogador para frente. Os efeitos sonoros são crocantes, viscerais. O som do rifle de plasma rasgando o ar ou o grito metálico de um endoesqueleto sendo desmantelado são música para os ouvidos. Mesmo sem dublagem, o design de som consegue vender a brutalidade e o peso desse universo de forma magistral.

O PODER DE FOGO MODERNO ENCONTRA O PASSADO

Jogar este título em um PC equipado com um Ryzen 7 5700x, uma RTX 4060 e 32GB de RAM é, de certa forma, uma ironia deliciosa. Estamos usando um poder de processamento que a Skynet invejaria para rodar um jogo que emula a estética de três décadas atrás. E o resultado é, como esperado, impecável. O desempenho é liso como mercúrio. Não presenciei um único engasgo, uma única queda de quadros. O jogo roda com uma fluidez absoluta, o que é vital para um título que exige reflexos de milissegundos.

Terminator 2D: NO FATE

A resposta dos controles é instantânea. Não existe input lag perceptível, o que é crucial quando você está desviando de uma chuva de balas. É um port extremamente competente, que respeita o hardware e entrega a experiência mais polida possível. O jogo é leve, não exige nada da máquina, mas brilha intensamente quando executado com a estabilidade que um PC moderno pode oferecer.

O VEREDITO FINAL DE UM FUTURO INCERTO

Chego ao fim desta jornada com o coração dividido. Terminator 2D: NO FATE é uma obra de contradições fascinantes. É, sem sombra de dúvidas, o melhor jogo baseado na franquia em muitos anos, o que, convenhamos, diz mais sobre a qualidade duvidosa dos jogos anteriores do que sobre este em si. É uma carta de amor visual e sonora, um tributo feito por pessoas que claramente entendem e respeitam o material original. A estética é sublime, a ação é competente e a atmosfera é imbatível.

No entanto, não posso ignorar a brevidade da experiência. Terminar a campanha em 45 minutos deixa um gosto de “quero mais” que rapidamente se transforma em frustração pelo preço cobrado. A decisão de bloquear as escolhas narrativas na primeira jogada é um erro de design que tenta mascarar a curta duração do jogo. É uma explosão de nostalgia, brilhante e barulhenta, mas que se dissipa rápido demais.

Se você é um devoto da saga, alguém que se emociona ao ver um polegar de metal erguido enquanto afunda na lava, este jogo vai te proporcionar uma tarde inesquecível. Mas é uma tarde, e nada mais. É uma experiência intensa, linda, mas efêmera. NO FATE é um lembrete de que o futuro não está definido, mas o passado, com todas as suas limitações e encantos, ainda exerce uma gravidade inescapável sobre nós. É um jogo que vale a pena ser jogado, sim, mas talvez com a consciência de que você está pagando por um ingresso de cinema premium, e não por uma saga épica que durará semanas. É arte pixelada de altíssimo nível, embalada em uma estrutura de jogo que, infelizmente, ficou um pouco presa no tempo.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Terminator 2D: NO FATE é, em essência, um deslumbre efêmero. A Bitmap Bureau entregou uma carta de amor audiovisual irrepreensível, capturando a textura e a atmosfera de O Julgamento Final com uma maestria técnica que emociona qualquer fã. Entretanto, a obra tropeça gravemente na própria brevidade e em decisões de design anacrônicas, como o bloqueio artificial das escolhas narrativas na primeira campanha. É uma injeção potente de nostalgia que termina antes mesmo de fazer efeito completo, deixando a amarga sensação de termos pago o preço de um banquete por um aperitivo de luxo.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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